Tragédias modernas
Dois haitianos discutem sobre como um deles, o menino, fará para puxar um cano d'água para a sua casa. A segunda personagem está de chegada, do que se presume que seja do trabalho ou do mercado, pois essa está de posse de uma bolsa e uma sacola de mercado. Os dois conversam por um longo tempo quando chega um homem em uma bicicleta e se direciona os olhares do menino e da mulher para os canos de água que perpassam a lateral de um valão.
Há alguns canos no campo de visão dos três, o homem desce da bicicleta e explica ao menino quais canos vai para a casa de quem. Mencionando como exemplo a casa que está há alguns passos para trás deles. De onde vem uma música bastante alta, sendo cantado uma música regional da região do norte ou nordeste do país, quiçá do sul.
O homem se aproxima dos canos e segurando um deles diz "esse vai para a casa dele" apontando para a casa de onde vem a música alta. O menino se atenta, a mulher olha, agora de mais perto, pondo as bolsas para trás e aproximando o rosto para onde o homem está agachado perto do valão, segurando o cano e instruindo o menino. Após uma longa conversa, o homem de sobressalto pega a bicicleta e diz que vai embora, dando um tchau abrupto e sai pedalando.
Resta agora o menino e a mulher que têm mais uma longa conversa, porém, dessa vez, parece ser mais concisa e em seguida ela parte também. O menino fica mais um tempo olhando para os canos.
Decorrido tudo isso, em um determinado momento onde ainda estavam os três discutindo sobre de onde vinha a água dos canos, surge um outro homem, esse agora com uma enxada no chão ao seu lado e um tipo de enxada em que os lados é de uma finura e mais práticos para se fazer buraco no chão com a intenção de se encontrar um cano de água que abasteceria os outros ou, talvez só fazer um buraco com o intuito de, já encontrado o cano que abastece os outros canos, encaixar o seu cano.
Parece-me agora que o menino, após a conversa com o homem da bicicleta do início, indicou ao homem procurar mais a frente o cano de onde todos os outros são abastecidos. Na encruzilhada ou também na esquina e também na passagem de uma longa avenida.
Ainda assim, enquanto isso, o homem que fazia o buraco que agora virou uma linha até onde os canos perto do valão, onde o homem da bicicleta tinha indicado, ao que parece, para não encaixar ali, foi cortado e agora está jorrando água limpa no valão de água suja, d'onde, ainda que esteja suja, há peixes adaptados a poluição e a sujeira dessa água, eles pulam.
Portanto, voltando ao principal, há homens agora, que antes não estavam lá e que estão em processo de puxar água para a casa de um outro homem, não mais a casa do menino. O menino e o homem que não ouso especular quem sejam, mas que ajuda o menino na sua empreitada de não puxar água do cano que está do lado do valão, mas do que foi indicado, o que jaz debaixo do chão, perto da esquina.
Ainda ouço barulho de enxada a bater no chão. Acho que a empreitada do homem que estava quase por finalizar a implementação de seu cano perto do cano principal que passa por cima do valão foi frustrada. Agora, no momento, ele tampa a linha do buraco que havia feito mas ao mesmo tempo continua a fazer buraco no chão com a enxada, e dessa vez é enxada mesmo.
Parece difícil de entender... apenas parece que o cano principal seja mesmo o que jaz debaixo do chão na esquina da longa avenida e do fim da rua. Os peixes mórbidos com certeza ainda pulam. O cano, que eu pensava ser o principal, foi selado e não mais jorra água limpa no valão, o homem que fazia o buraco na linha já terminou seu trabalho, de fechar os buracos retilíneos, que tinha feito e, possívelmente, foi de encontro ao menino e ao outro homem que o ajuda na esquina.

